A algum tempo atrás um estudante da UFES que havia ficado cego recentemente, contou-me como a sua vida tinha se tornado diferente depois de perder a visão: Não podia mais fazer coisas simples, que para nós é corriqueiro, mas que para ele se tornou muito difícil: Ter um talão de cheques, ler livros, dirigir, andar de bicicleta, ir ao cinema, jogar, futebol, andar livremente sem precisar de algum guia. Conhecer pessoas e se relacionar é ainda mais difícil pois o preconceito é muito grande. Mas tem um lado bom! Apesar da falta de visão, ele me relatou que deixou de ter uma primeira impressão das pessoas, pois passou a conversar mais e passou a conhecer o interior dos seus interlocutores não se prendendo apenas a aparência visual. Para ele não existe mais feio ou bonito, preto ou branco, rico ou pobre, apenas pessoas. Se livrou de vários conceitos e preconceitos. Imagino que também passou a perceber os tons de voz, e através deles captar os sentimentos por detrás das palavras. Deve conseguir sentir através da voz quando alguém está nervoso, calmo, entusiasmado, e algumas vezes saber se está mentindo. Os cegos têm toda uma sensibilidade que todos nós temos, mas que nossa visão acaba atrapalhando. Quantas vezes já pensou a respeito de alguém: Não vou com a cara de fulano; nossa, que roupa mais feia, a de beltrano; o cabelo dela está tão maltratado; o carro de ciclano está tão feio e velho!
Imagine se você fosse cego! Certamente não pensaria em nada disso por que simplesmente não estaria vendo. Você se preocuparia em conhecer melhor as pessoas com quem convive. O número de amigos certamente diminuiria, mas os que ficassem, com certeza seriam os verdadeiros amigos. Na maioria das vezes nós vemos , mas não enxergamos quase nada.
Everson Leal
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