Em um certo domingo, para não perder o costume, estava dedilhando o teclado de meu computador, a fim de dar cabo a um trabalho lá da UFES. Concentrado, compenetrado em meus pensamentos envoltos em teorias, textos fugidios e autores desconhecidos, eis que escuto um foguetório, tal como uma saraivada de tiros em uma guerra. Parei repentinamente e pensei: Quem está jogando? “-MEEEEEEEEENGOOOOOO!!!!” Não tardou a ouvir o mais chato grito de torcida . Chato mesmo. Não é só por que eu não sou Flamenguista não, mas cá entre nós , é muito chato ter que ouvir os chatos durante uns quinze minutos gritando a mesma coisa. E o negócio piora se o rubro negro sai ganhando o jogo, pois a torcida aumenta o placar das cervejas e fica cada vez mais eufórica e alcoólica. Não resisti e fui ligar a TV, já que me lembrei que estava ocorrendo um dos maiores clássicos do futebol carioca e Brasileiro: Botafogo e Flamengo.O Flamengo tinha feito 1 a 0. Fiquei escutando o jogo, lá do quarto, enquanto tentava voltar à labuta de concluir o que estava fazendo. Os dedos vão zunindo em cima das teclas e o texto vai fluindo.POU! POU! POU! Novamente eles , os foguetes. Mas desta vez ouço um único grito, mais longe: “-FOOOOOGOOOOO!” Bem ou alguma casa estaria ardendo em chamas ou o time da estrela solitária teria feito um gol; Para minha alegria ao conferir o placar lá na sala, o Botafogo tinha empatado. Não que eu seja botafoguense, mas adoro uma boa peleja futebolística, de preferência se o Flamengo estiver perdendo. Pode ser até mesmo contra um time da Argentina, que eu torço contra. Tudo por causa dos chatos de minha família que me introjetaram uma raiva imensa contra o Flamengo devido ao: “-MEEEEEEEENGOOOOOOO!!!!” Bem tento retomar meu texto e pouco depois escuto o locutor gritar : “-GOOOOOOOOOOOL, DO BOTAFOOOOOOGOOOOOOO!” Que delícia, 2 a 1 para o Fogão : Amanhã vou encher o saco(como forma de vingança a todos os que encheram o meu durante toda a minha vida) dos colegas rubronegros. Acho que é um pouquinho de sadismo ver aqueles torcedores fanáticos arrumando um monte de desculpas para a derrota de seu time. Todos apontam um caminho que teriam tomado, se fossem o treinador do time , e que certamente levaria à vitória. Mas deixa pra amanhã. Agora retomo o meu trabalho. Mas peraê! Minha mulher e meu filho, que são Flamenguistas, estão na casa do meu cunhado, que também é ; e o meu outro cunhado e sua esposa, que também o são também estão lá, pois foram batizar minha sobrinha, e agora devem estar sem piscar os olhos diante da telinha. Tenho que ligar : “-Alô, amor? Estão assistindo ao jogo? Tá bão né? Só liguei para avisar que o seu time vai tomar uma goleada. Dê um abraço no pessoal e transmita o meu recado. Beijos, Tchau.” Morri de rir. Mas onde foi que eu parei mesmo? Ah, sim no texto “Políticas governamentais para a Sociedade da Informação no Brasil”. Deu fome. Fui à cozinha e peguei uma xícara de café preto e alguns biscoitos Cream Kracker . Como não conseguiria escrever comendo, fui ver o final do jogo e para a minha decepção o Flamengo empata em 2 a 2 no final do segundo tempo. Amanhã não será mais aquela alegria , de pegar no pé dos colegas. Seria a única coisa a alegrar a chatice de uma segunda feira. Mas domingo que vem tem mais.
Everson Leal
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